
Estou viva. Não sei se vos interessa muito, mas estou bem viva até. Sinto-o. Se há coisa que eu precisava muito era sentir-me assim: viva. Durante os últimos anos da minha vida - anos duríssimos por supuesto - não consegui acreditar em outra coisa senão na hipótese quase certa da vida não ter mais nada reservado para mim. Como poderia ela surpreender-me depois de me ter quase levado? Parecia-me bastante impossível. Ainda parece às vezes, confesso. A dor - com quem tenho mantido uma relação de diplomacia - foi a única coisa em que acreditei. Como se fosse possível viver sob este pacto: a vida não me fazia sofrer mais em troca de uma existência pacífica e pouco condimentada. Começo a suspeitar que se calhar eu não sou uma mulher assim tão pacífica, se calhar eu não me contento com uma vida assim tão pouco condimentada, se calhar eu quero mais e ao contrário do que eu pensava antes, não há nada de errado em desejá-lo muito sobretudo depois de ter sofrido tanto. Eu QUERO. Tudo a que tenho direito. Tudo o que (ainda) não tive e tudo o que tive e de que gostei (e não me importava de repetir).
Gerir tanto sofrimento e tanta dor em simultâneo fez-me fugir de tudo e de todos, até de mim. Há momentos na nossa vida em que a única coisa que nos resta fazer é ligar o piloto automático e esperar que a turbulência passe. Foi mais ou menos isso que me aconteceu. Primeiro tratei de sobreviver e depois, quando houvesse tempo, se houvesse tempo, eu havia de chorar. Pensei, ingenuamente, que evitando a vida, evitaria também mais dores. Na realidade, habitei um corpo sem desfrutar muito dele. Não ter tido relações sexuais durante estes anos foi uma escolha minha. No fundo, não deixei que ninguém se aproximasse. Não sei se vocês já passaram por alguma situação semelhante, mas a sensação de impotência que nos invade quando se ordena ao corpo uma coisa e ele não responde, é horrível. Durante muito tempo, olhei para o meu corpo como a origem de toda a dor que me era impigida. Durante muito tempo o meu corpo pertenceu aos médicos e à medicina, (ainda pertence na verdade), e nesse processo, o meu sexo, o que me definia enquanto mulher, a minha sensualidade, foi-se perdendo. Não me sentia desejada e não me sentia muito sexual embora continuasse a ter muito desejo. Só comecei a resgatar de novo essa ideia quando percebi que estava a voltar a ter algum controlo sobre o meu corpo. Quando o submeti a alguns desafios e os resultados apareceram. O ginásio foi (e continua a ser) a minha terapia. Depois vieram as primeiras saídas, os olhares, as conversas, os dates, A pessoa. Ainda que o nosso caso tenha sido uma comédia americana foleira, devo-lhe um bocadinho isso. Acho que o gajo que escreve o guião o colocou na minha vida com essa finalidade: lembrar-me que era mulher e que o meu corpo continuava a ser desejado como já tinha sido antes provavelmente com a intenção de me preparar para quem viria a seguir. A única que na verdade via limitações era eu. É sempre sobre nós.
Um dia, cansada de tentar estabelecer conexões e não conseguir, perguntei a um amigo meu dado às terapias alternativas se eu não teria um chacra qualquer bloqueado e ele respondeu-me com a sua voz de garantia que não, que a única coisa que eu precisava era acreditar mais em mim, que estava no caminho certo e que ia lá chegar levasse o tempo que levasse, o importante era não desistir. No fundo, foi um bocadinho isso que aconteceu. É isso que tem acontecido. Fui-me abrindo, aos poucos, e deixando a vida entrar. Sempre com medo claro, mas com mais vontade também. Eu disse-vos que sentia que 2022 era o ano, que estava próximo. E estava. O jejum está quebrado, o trauma ainda não. Acho que vou precisar de mais uns quilómetros até me sentir um bocadinho mais inteira. Ou mais segura. Ou mais confiante. O que eu sei melhor hoje é que se calhar nenhum de nós está assim tão inteiro como parece e que isso não é necessariamente uma coisa feia. Devíamos ser todos mais honestos, mais vulneráveis e mais maduros em relação aos nossos processos de reorganização emocional. Não há exercício mais bonito do que alguém a tentar ser feliz, cada um com as suas dores.
Quis escrever-vos na altura, no momento quente, mas não consegui. Deixei-me apenas sentir. Acho que isso foi realmente o mais importante: permitir-me sentir pela primeira vez em muito tempo. Permitir-me ser vulnerável, humana, real e deixarem-me ver, assim. Mesmo que eu o tenha tentando disfarçar, não consegui. E isso foi assustador... e raro. O bom de nos deixarmos viver um bocadinho é que tudo sabe a novo. Quando vos escrevi que foi muito mais do que sexo, é porque na realidade, toda a experiência teve o impacto de um meteorito. Mas um impacto bom. Quando uma amiga minha me perguntou como é que tinha sido a minha segunda primeira vez, eu respondi-lhe que agora é que tinha sido a primeira a sério! Tecnicamente não foi um sexo estrondoso, não podia ser, acho que nunca o é na primeira vez e muito menos depois de muito tempo sem. Não foi sexo. Foi outra coisa. Não vos consigo explicar. Foi qualquer coisa estranha. E boa. E estranha. E nova. E diferente. Qualquer coisa que me levou a pensar: "caramba, a minha vida, afinal, agora é que está a começar". Ainda bem que isto ainda me estava reservado. Ainda bem que depois de tantos fins, a vida me ofereceu, de novo, uma primeira vez. Valeu a pena esperar.