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O Sexo e a Periferia

Entre a Carrie Bradshaw e a Bridget Jones. Com muito menos glamour, é claro.

Hoje fiz uma coisa (nova) que queria fazer faz tempo: reiki. Não custa tentar, pois não? Continuo disposta a experimentar coisas diferentes, nem sempre surge oportunidade (aka coragem). O reiki veio mais ou menos até a mim - num contexto tranquilo e  pacifico - e não me foi dificil dizer que não. Como já vos disse, tenho considerado tudo o que chega até mim um must try. Dúvidas existem sempre. Até que ponto um terapeuta - a tocar-nos em diversos pontos do nosso corpo - é capaz de nos fazer sentir melhor? No entanto, a possibilidade de pararmos uns minutos, sairmos das nossas cabeças e reflectirmos sobre a nossa energia e a sua respectiva fonte de alimentação talvez seja o maior desafio que o reiki (nos) coloca. Já experimentaram alguma vez? Qual é a vossa opinião?

 

Estou a pensar nisto como um processo. Quando nos queremos alimentar melhor, ter consciência do que comemos e onde podemos ir buscar os melhores nutrientes, o que é que fazemos? Recorremos a um nutricionista, certo? Quando estamos com problemas a gerir emoções recorremos a quem? Ao psicólogo. O reiki parece-me o equivalente, mas para os fluxos de energia... e eles são tão importantes quanto o resto. Se me pedissem uma palavra para descrever como me sinto agora, acho que a melhor palavra seria vazia. Sinto-me completamente vazia. A tristeza que trago em mim persiste porque obviamente as minhas fontes de alimentação - sejam elas quais foram - não estão a funcionar. Sinto que a maioria das relações que mantenho não são capazes de me realimentar, funcionam nunca única via. Isso leva a sentir-me também abandonada. O reiki explica que quando as fontes de alimentação habituais não estão a funcionar é o primeiro aviso para procurarmos outras. Quando começamos a identificar necessidades diferentes significa que não vibramos mais com aquilo que nos rodeia, a dita evolução. A evolução não tem sido um caminho feliz (pelo menos para mim). O abandono, esse, vem normalmente da herança familiar. O reiki chama-nos a atenção também para a forma como falamos connosco, para o tipo de linguagem que utilizamos. É uma experiência muito analítica e bastante imersiva (para quem se dá ao trabalho). Acho que nos pergunta essencialmente se temos actuado - de corpo e alma - de acordo com aquilo que desejamos. Deve ser isso o que as pessoas chamam de "manifestar". É óbvio que eu não tenho feito nada de acordo com nada, mas pelo menos (e tal como disse o terapeuta) estou consciente disso. 

 

Coincidências estranhas ou não: estávamos a falar de identidade e a utilizar nomes próprios como exemplo, um feminino - o meu - e um masculino escolhido como exemplo pelo terapeuta. O nome que ele utilizou - sem saber absolutamente nada da minha vida - foi o do meu ex. Ressoou bastante em mim porque o meu ex foi das pessoas que mais energia me sugou nesta passagem pela terra. Ele, a minha mãe, a minha irmã, umas quantas amigas. Aliás, há pouca gente à minha volta que acrescente. Que pergunte primeiro por mim. Que ofereça ajuda. Sinto sempre que me tiram, que levam e não repõem. Fisicamente não senti nada de estranho, a vibração das mãos durante o toque, calor perto dos chacras, um ou outro ligeiro formigueiro e vontade de sorrir mesmo de olhos fechados. Disse-me que me faltava espírito (quando eu achava que era coração) e que eu tinha uma alma velha (o que também não é novidade porque sempre me senti velha) e disse-me que eu era uma pessoa muito intuitiva (o que também bate certo com a minha percepção). O suposto chacra mais bloqueado - não, não é o do sexo - é o chacra do plexo solar ou umbilical, o chacra do "eu faço" onde nasce a auto-confiança (coisa que a pessoa faz parecer que tem, mas não tem assim tanto) e a capacidade de agir e tomar decisões. Quando este chacra está desequilibrado surgem sentimentos de impotência, medo de rejeição, insegurança, falta de energia para realizar tarefas e procrastinação. Recomendou-me meditar (coisa que eu também não costumo fazer).

 

Ainda assim, ao longo do dia de hoje, dei por mim a proferir vários mantras - eu vou conseguir, eu sou capaz, a minha fé é grande, a minha fé é grande. Se os actores decoram papéis assim, se eu repetir muitas vezes a mesma coisa também sou capaz de interiorizar isso. Estou a tentar mudar o discurso interno. Mimar-nos todos nós sabemos como, tratar-nos já não. Talvez tenha de começar por aí. Foi uma experiência interessante. Veremos que ecos deixará em mim e o que consigo fazer com ela. 

Aviso: isto é um dark-post. A primeira depressão que eu tive atropelou-me aos 30. Eu sabia que os momentos menos felizes também faziam parte da vida, só não estava consciente da forma impiedosa como eles nos podiam paralizar. Vivi muito tempo em looping até finalmente procurar ajuda profissional: psiquiatra e psicólogo. A vida - que eu tinha escolhido e para a qual tinha trabalhado - era uma decepção. Lembro-me perfeitamente de ir para cama a chorar e acordar da mesma forma. Uma cena que se repetia todas as noites. E todas as manhãs. Fui deixando de funcionar gradualmente. E tinha - aparentemente - tudo. Emprego estável, namorado, casa própria. Nenhuma dessas coisas me fazia feliz. Quando ganhei coragem - com a ajuda dos profissionais, claro - para mudar de vida (despedir-me, acabar a relação, deixar a casa), adoeci. O desfecho não podia ter sido outro. As hipóteses de sobreviver eram reduzidas. Fui engolida por um tsunami. A doença, os médicos, os exames, os hospitais, o ex a ligar-me, os amigos que não sabemos mais quem são. Gente que entrou, saiu, passou e eu nunca percebi porquê. Sentia-me um espectador. O meu nome só interessava aos médicos e aos técnicos das análises. O "meu momento" nem sequer pôde ser meu. Foi tremendamente duro. Por mais terapia que faça não sei se isto algum dia irá sair de mim. 

 

Ninguém fala do depois. Dos sobreviventes. De quem fica. Do viver com a doença e para além da doença. Das reconfigurações. Um exercício muito semelhante a arrancar a própria pele e esperar que nasça outra. Mais bonita claro. Ninguém aceita que possa ser só mais ou menos bonita. Quem sobrevive tem de ser o herói, tem de ter feito algo espectacularmente bestial. Sobreviver não basta, pois não? Ando nisto há 10 anos e acho que fiz muito e bastante neste intervalo. Aguentei as provocações do ex, os amigos que desapareçam, os familiares que me magoaram, os patrões que me dispensaram. Fundei um negócio, comecei a treinar e a alimentar-me melhor, priorizei-me, esforcei-me muito para viver a vida que tinha imaginado a melhor para mim. Não me considero optimista. Nunca consigo pensar no bom, no fácil, no grátis. É uma formatação. O minimo que eu consigo é considerar-me uma pessoa com sorte porque a tive (no meio de todo o azar). Então eu acho que é muito legítimo estar cansada, irritada, defraudada. Um amigo meu, com quem falava outro dia, dizia-me que sentia que a vida lhe devia algo. Que nós (os que estão doentes ou já estiveram), vamos achar sempre isso. Que alguém nos tirou alguma coisa e nos deve alguma coisa. E talvez seja exactamente isso. Neste momento, acho que me devem várias coisas e todas elas boas. Sair à rua todos os dias com cara de quem lhe devem alguma coisa não é lá muito fixe. Mas devem. Porra, devem. 

 

A história repete-se. Como é natural. Tenho resistido e rejeitado a ideia de que estou bastante triste, mas a verdade é que estou. Sinto os dias pesarem-me muito. Também sei que isso faz parte da vida e que não dura para sempre, mas está a ser dificil. Mais uma vez, outra vez, não tenho nada de que me possa queixar, mas sinto uma tristeza enorme dentro de mim. O Inverno não ajuda, a altura do ano também não. Eu faço tudo - juro - o que dizem ter efeito. Nada está a resultar. E não, não quero sentar-me outra vez no sofá do psicológo e contar-lhe a minha vida. Tenho a sensação que todas as pessoas que passam por mim me arrancam um bocado e vão-se embora. Talvez eu seja uma espécie de divindade. Curo todos os males, menos os meus. Não tenho neste momento um amigo que me ligue a troco de nada ou tenha a decência de me perguntar como é que eu estou. Nem é pedir muito. Apenas um. Quando precisam de mim, lembram-se. Quando eu adoeci houve muita gente que não aguentou comigo e com razão. Um dia,  uma amiga que não me dizia nada há muito tempo ligou-me (porque a minha mãe lhe tinha pedido, claro) a sugerir que jantássemos no dia do meu aniversário. Respondi-lhe que não, ela insistiu e eu fui tentando fugir à questão até que ela me deixou sem saída: "tu desapareceste da minha vida e eu não consigo sentar-me numa mesa contigo, não faz sentido". Como se isso não bastasse, ela remediou o caso com um "não sei quando é que estás bem e queres fazer alguma coisa" ao que respondi: "e por acaso perguntaste? Pegaste no telefone para saber? Não, pois não?". Voltar à vida depois disto é foda. 

 

Também sei que isto é o estado actual das coisas. A incapacidade de se fazer algo pelo outro. Quando me enfiei no meu carro, gastei gasolina, fiz alguns quilómetros num dia de chuva, vento e frio, numa sexta-feira à noite, depois de uma semana de trabalho cansativa e fui jantar com o R. esperava o minimo. Ainda lhe paguei o jantar porque a ideia tinha sido minha e porque ele já me tinha falado das dificuldades económicas com as quais se debatia. Quando cheguei a casa, minutos depois de ter tido sexo com ele, ele já tinha postado um story em que revelava uma mensagem anónima que alguém lhe tinha enviado "gostava de estar contigo mais vezes" com a resposta "experimenta pedires". Eu não esperava muito, já o disse, mas uma parte de mim morreu nesse exacto instante em frente ao ecrã. Eu era só - sou só - uma miúda de 40 a tentar acreditar em alguma coisa boa. Nem sempre acredito, mas às vezes acredito e essa é a parte que me custa mais. 

Eu ando sempre a brincar com os esoterismos (muito ismos) da minha vida, mas ontem li isto a respeito do meu signo:

"Tem existido, ultimamente, muita energia negativa à tua volta. Pode vir de ti próprio ou dos outros. Talvez tenhas o coração partido, outra vez, e está a custar-te muito juntar os pedacinhos todos. Talvez andes a duvidar demasiado de ti e vivas atormentado pela síndrome do impostor. Seja o que for que estejas a passar, este novo capítulo da tua vida exige que deixes todo o sofrimento para trás. Tens de te perdoar ou apenas esquecer e seguir. A negatividade está a pesar-te demasiado e puxar-te para o fundo, mas lembra-te como és resiliente. Existem coisas melhores à tua espera assim que encontrares paz".

Ouch! Honestamente, não me tinha dado bem conta como me sinto tão partida, mas isto ecoou bastante na minha cabeça.

F#da-se.

Estava aqui a pensar em "sinais". Cenas esotéricas propriamente falando. Aquelas que normalmente apelidamos de coincidências ... ou destino. Acreditam nelas? Dão-lhes importância? Não sei se é uma coisa mais só das mulheres ... mas que as há, há! Estava a pensar nisso porque outro dia fui ao supermercado e o rapaz que estava a reabastecer a fruta tinha uma tatuagem igual à do R. exactamente no mesmo sítio da do R. Uma pessoa já não pode ir à fruta descansada. Qual seria a probabilidade? Será que esta tatuagem é a último grito da moda e eu estou completamente desactualizada? Não nos esqueçamos que a criatura tem 25 anos de idade, portanto 15 anos de diferença dá para eu estar mais do que desactualizada! Esta parte especifica do livre arbitrio - de sermos nós a escolher que sinais seguir - é a mais complicadita, não é? No entanto, desde que o deixei de seguir tenho resistido ... até porque não há muito a fazer, pois não? 

 

Se vivemos os dois no mesmo sítio, apenas a alguns quilómetros de distância e nunca mais nos voltámos a cruzar, isso também deverá querer dizer alguma coisa, não? Pode ser um "sinal" do destino ... A probabilidade de nos cruzarmos é alta e simplesmente nunca aconteceu (pelo menos até agora). E se calhar nem é boa ideia acontecer, portanto não vamos falar do assunto (ultimamente tudo aquilo em que penso, acontece). Sabem quando falam de uma pessoa e a seguir cruzam-se com ela? Ou pensam num determinado tema e alguém vos vem falar disso? Acontece-me a toda a hora, sempre me aconteceu. Eu sei que somos seres extremamente sugestivos, mas por vezes são coisas tão imediatas que (me) assustam ... daí acreditar que há um fio qualquer que nos puxa para determinados lugares em determinadas alturas. A grande questão é: se isso me acontece a toda a hora porque carga de água é que nunca consegui manifestar e ser bem sucedida, o desejo de ter namorado? Eu e o cosmos temos umas coisitas para resolver, ai temos, temos. Tudo o que leio sobre o meu horóscopo é assustador. 2025 implica mudanças e eu resisto bastante a elas. Muitos conselhos para abandonar velhos hábitos, padrões e comportamentos. Para cortar com aquilo que já não me serve. Para abraçar o inesperado e o novo. Fala também em pessoas do passado (QUEM?!) voltarem à minha vida... Passado-passado, passado-recente? Eu sei lá o que é passado? 20 anos? 10? 5? Os astrólogos deviam ser mais precisos, ora bolas! Preciso de datas!

 

Qual é então a estratégia que eu tenho tentado seguir: dizer que sim a quase tudo. É uma estratégia definitivamente estranha, mas como vos disse antes, quero zerar o meu karma. E é - também - a única estratégia possível quando a pessoa está a roçar o desespero. Não pensem que perdi muito tempo a arquitectá-la, era o que havia à mão. Sempre que alguém me convida para um programa ou me propõe alguma coisa, eu desligo o cérebro 2 segundos e penso: "espera, não respondas já que não, se isto surgiu é porque é um sinal". Não sei por que caminhos é que mestou a meter, mas a pessoa quando chega aos 40 só pensa: "vamos miga, falta pouco para a menopausa!" por isso tenho tentado aceitar o que o universo me põe à frente e isso está fechado. Será o grande exercício do meu ano: dizer mais que sim e menos que não. E dar uma verdadeira oportunidade a tudo: às coisas, às pessoas, a seja lá o que for.

Tomei várias decisões recentemente. Uma delas agora mesmo. Hoje. Acabei de entrar no facebook do R. e cliquei no botão "Não seguir". Foi um impulso. ENOUGH IS ENOUGH. Sinto-me cansada. Não posso continuar a dar força ao meu lado "lunar". Ele seguiu em frente, não seguiu? Então vamos (tentar) virar mesmo a página. Várias pessoas sugeriram-me fazer isso e eu achei que devia realmente dar ouvidos àquilo que me estavam a dizer (coisa que não é costume). Também estou cansada de ser teimosa (e comecei a ver Baby Reindeer, o que pode ter-me influenciado). Porque não experimentar um defeito diferente em vez deste? Não quero sentir-me uma stalker, mas acima de tudo não quero ter esta sensação da vida a passar-me à frente do nariz. 

 

Começo a ver mudanças, minúsculas - tiny tiny - mas importantes. Estou a descer um pouco o muro, pedrinha a pedrinha. Depois de um Janeiro bem introspectivo, prometi à mim mesma que ia tentar zerar o meu karma... Honestamente, não sei se aguento voltar noutra reencarnação, portanto vou portar-me bem para ver se esta é suficiente. Sinto que estou a abandonar velhos padrões e fantasias que sempre me impediram de viver a realidade. As relações não são perfeitas, mas se eu continuar a não pedir desculpa e a não dizer como me sinto e simplesmente a fugir, elas nunca serão. Experimentei fazê-lo com uma amiga com quem não estava em bons termos. Ensaiei o discurso em casa e quando a vi, toquei no assunto. Superei as minhas dificuldades e para meu espanto (que estou pouco à vontade nestas coisas), correu tão bem ou melhor do que o que eu tinha imaginado. Pedi-lhe desculpa por tê-la feito sentir-se mal quando eu é que não tinha estado bem. Fi-la sentir-se horrível porque me sentia péssima e não podia de forma alguma permitir que ela continuasse a acreditar que era uma má pessoa por aquilo que me tinha feito. Eu não estava zangada com ela, estava zangada com um série de pessoas, inclusive comigo e culpei-a a ela num momento de desespero e de raiva quando na verdade, o que ela fez, representava um gafanhoto. Faz parte do caminho assumir as nossas culpas e eu tenho algumas.

 

Se eu o R. tivermos obviamente que nos cruzar porque o gajo que escreve o guião achou que sim, isso há-de acontecer. E quando acontecer, logo se vê. Quando nos conhecemos, eu não lhe disse o meu apelido nem lhe dei o meu facebook. Dei-lhe apenas o contacto telefónico e disse-lhe que não ia responder se ele enviasse mensagens. Disse-lhe também que se ele me encontrasse, pagava-lhe um café. Levo-o no melhor sítio onde pode estar: no meu coração, mas preciso muito de seguir porque isto está a corroer-me e  cansar-me.

Algumas pessoas (as poucas com quem ainda vou mantendo algum tipo de relação) sugerem-me várias vezes terapia. Acho que se tornou um bocadinho moda sugerir terapia. Não sou contra, claro que não. Já recorri mais do que uma vez e foi obviamente a melhor decisão que tomei. No entanto, não me apetece voltar a sentar-me num sofá e resumir / recapitular a minha vida. Até porque isso é o que todos nós fazemos diariamente, uns mais do que outros. A terapia é de facto muito higiénica. Paga-se a alguém para nos ouvir debitar em voz alta uma série de coisas que normalmente não dizemos a ninguém e que ficam ali sepultadas até encontrarmos outro espaço para as armazenarmos. A parte invisivel da terapia - e necessária - é o luto e a dor. As coisas que doem têm de doer e é por isso que são insuportáveis. Em teoria, dizem, depois de doerem, nós crescemos e evoluímos. A escrita sempre foi uma das minhas terapias. Sempre me ajudou a deitar para fora coisas que me custam a assumir. A verbalizar. Tomei um banho e sentei-me na cama com o portátil.

 

Tenho uma bruta ressaca. Sim, o vinho também pode ser outra das soluções. Tive um jantar com amigas - o primeiro de 2025 - e ao contrário do que eu esperava foi extremamente terapêutico (apesar das dores de cabeça). Foram partilhadas coisas muito importantes e honestas (acho que foi um dos primeiros jantares em que conhecemos um pouco da vida uma das outras sem máscaras). Vidas muito diferentes cheias de desejos muito semelhantes. O normal em mim seria ter recusado ir ao jantar. Ando deprimida (como vocês sabem) e negativa. Em ebulição por dentro. Afastei-me de muita gente, reduzi as interacções sociais e restringi muitas pessoas nas minhas redes. A questão é que eu não sei se isso é efectivamente a solução porque conduzir-me-á a uma coisa que não me pode acontecer: ficar ainda mais sozinha. Então arrastei-me, apareci e valeu muito a pena porque trouxe ferramentas para casa comigo. 

 

Comecei a pensar porque é que me fechei tanto ao longo da vida? Porque provavelmente em alguns momentos determinantes da minha evolução as pessoas desfizeram-me em bocadinhos. Já contei alguns deles aqui. E depois de me sentir desfeita, fiz o que seria expectável, fechei-me para me proteger. O primeiro rapaz com quem tive relações sexuais dizer-me que não gostava de mim (só de fazer sexo). O meu primeiro namorado - com quem eu imaginava que iria viver um conto de fadas para sempre - dizer que não queria ficar comigo. Os ghostings, as traições, as atitudes de várias pessoas que nunca se justificaram. O último namorado e a relação de terror que vivi com ele. O estado delicado e intermitente em que vivi vários anos sem saber se continuaria aqui. As perguntas indiscretas das pessoas. Tudo o que me destruiu me fechou. Há poucas coisas que me tenham partido e aberto, mas existem. Lembro-me de duas pessoas, talvez três, que embora me tenham partido, obrigaram-me a desfazer alguns muros. Libertaram-me. E não só libertaram-me como também me permitiram ver-me de verdade. Quem eu escondo que sou. Agora que estou a ficar "maior" é importante para mim ser quem eu sou (porque acho e sinto que nunca o fui totalmente). Que nunca me vivi. Essas pessoas deram-me uma coisa importante: deram-me a oportunidade de perceber que sendo eu, eu também consigo e posso ser feliz (se calhar mais feliz até). Porque é que me é tão dificil acreditar nisso?

 

O R. foi - até agora - a pessoa mais diferente que eu já conheci. Em tudo. À medida que o fui conhecendo, na minha cabeça iam sendo criadas listas de prós e contras e o mais incrivel, assim bem incrivel, é que apesar dos contras serem bem mais do que os prós nessa tal lista que eu inventei, qualquer um dos prós era suficiente para fazer dele uma boa pessoa... mesmo assim, nada me impediu de responder - sempre que ele me perguntou se tinha saudades suas - que não. Olhem o que eu ganhei com isso. Valeu muito a pena guardá-lo só para mim. Então agora tem de doer porque é a parte em que tem de doer. Simples assim. 

 

Arranjei-lhe inúmeros defeitos. "É uma criança""O filho é tão pequenino", "Nunca terá dinheiro para viajar comigo", "Nem um televisor ele conseguiu comprar", "Só come porcarias", ""Deve andar à procura de uma mãezinha", Sabe lá o que é a vida". Se calhar sabe. E se calhar não é tão grave assim comer porcarias quando não tem tempo para cozinhar porque está demasiado ocupado a trabalhar para conseguir comprar o televisor. Se calhar é mesmo uma criança que cresceu sozinha e é natural que precise de amor como todos nós precisamos. Talvez o amor seja sobre dar. Talvez o amor que damos seja o que os outros podem levar para sempre com eles. Talvez seja isso que (n)os salva. Talvez seja isso que nos faz ficar.

 

Acho que agora vocês já percebem porque é que estou sozinha. Ou porque é que as minhas relações nunca foram muito saudáveis. Nunca tinha tomado consciência deste mecanismo, desta forma de funcionar, mesmo com a terapia toda que fiz. Foi ele. Foi o R. Por isso, se calhar, tinha mesmo que o conhecer. Tinha que passar por isto. Ver escancarada na minha cara, mesmo à frente dos meus olhos, a vida que eu queria estar a viver. Se calhar eu tinha que descobrir um vírus activo. Se calhar eu tinha mesmo que levar um puxão de orelhas para acordar. As coisas acabam todas muito rápido. Inclusive nós também. Se vou ter capacidade para fazer diferente? Não sei, não posso garantir. O que eu sei é que se queremos resultados diferentes, deveríamos actuar de formas diferentes (se as mesmas já não estiverem a funcionar e as minhas claramente não estão). Nos últimos anos, a vida empurrou-me bem para a beira do precipicio. Foi-me pondo desconfortável, dando e tirando e agora percebo porquê. Não há nada na minha vida de que eu me possa queixar, a não ser um vazio grande e esse vazio chama-se aquilo que eu quero. Talvez esteja bem na hora de eu começar a dizer às pessoas o que realmente sinto e o que realmente desejo. As pessoas não se medem em listas, muito menos o amor. Levem isso convosco. 

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