Estou exausta. Nesta época do ano - e à custa de muito trabalho - começa a falhar-me tudo, sobretudo a paciência (o ingrediente principal da vida). O Verão pede que eu seja rápida a dar resposta às solicitações dos clientes (que querem tudo para ontem) e isso dá-me cabo dos nervos porque o conceito não está pensado (e muito menos adaptado) para a venda rápida e imediata. Sou só uma e a única que consegue aconselhar sobre a especificidade de cada produto. Vivo sem os encargos de ter empregados, mas acumulo o cansaço e o desgaste de pelo menos dois. É por isso que no Verão eu habito o corpo, mas a alma tira férias.
O senhorio deixou-me à vontade com a questão da saída, "se não encontrares nada, continuas aqui", mas os filhos dele exigiram datas. Querem expandir-se (estou num espaço comercial ao lado do espaço comercial que ocupam) e sou eu quem está a atrasar o processo. Posso ir para um espaço maior, mas não sei se faz sentido. Não posso esquecer-me dos factos e os factos são: estou a envelhecer e a paciência (para isto e para o resto) vai começar a faltar-me. A endocronologista pediu análises porque existe a suspeita de estar a fazer uma menopausa precoce. Para além do impacto que isso pode ter na minha saúde física e mental, juntam-se às circunstâncias outros factores: o centro histórico onde estou está deserto, saindo daqui saio da rua mais atractiva do momento, contudo pensar numa mudança maior - para outra zona geográfica - aumenta consideravelmente o meu refluxo gástrico.
O primeiro pensamento que tive foi: "que bela oportunidade para acabar com tudo!". Ter uma boa desculpa tornaria a decisão mais fácil de ser tomada. Aquilo que me está a acontecer agora, na realidade, já podia ter acontecido antes, eu é que nunca pensei nessa possibilidade. "E vou viver do quê?". Ora aí está. Acho que ainda não é o momento de desistir, é apenas o momento de mudar. Gosto do que faço e não consigo imaginar-me de novo num ambiente 9H-18H. Apesar da dureza do empreendedorismo em nome individual, há uma liberdade MUITO PEQUENA que compensa o esforço e as dores. Tudo o que tenho - incluindo um bom pé de meia que os meus afilhados hão-de estragar na falta de herdeiros directos - é demasiado bom para jogar fora.
Fiz alguns contactos - muito poucos confesso - e estou à espera que as coisas se desenrolem. Na verdade, estou à espera de ter um feeling. Chamem-me louca, mas tudo o que faço na minha vida tem de ter um feeling e por enquanto ainda não senti nada... e é isso que me está a enervar mais! Estou completamente às escuras em relação a que direcção tomar. A parte boa disto tudo é que ando tão ocupada com a minha vida que não tenho tido tempo para pensar em mais nada e ainda bem porque basta-me o que tenho em mãos. Estou a confiar no processo - na medida do possível - (espero que ele saiba disso) e estou também a tentar não medir forças com o que se atravessa à minha frente. Bem que podia ser um moreno, de 1,80m, com uns ombros largos e uns braços fortes. Para ajudar na mudança, claro...