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O Sexo e a Periferia

Entre a Carrie Bradshaw e a Bridget Jones. Com muito menos glamour, é claro.

 

Ultimamente sinto-me atraída por homens mais novos. Espalham saúde. É chato ter a minha idade. Não recomendo. Uma pessoa tanto faz o pai como o filho. É preciso ter juízo para evitar problemas domésticos. Primeira vez, fui aos 34. E fui muito bem. Fiquei extremamente bem impressionada. Se calhar o problema foi justamente esse. De 0 a 20, o de 34 passaria com mérito: 18 valores. Pena que uma pessoa nem sequer pôde repetir. Após algumas rondas no charco, fui - a medo -  aos 31. Grandes expectativas. Acabou como vocês sabem. Com umas bed restraints a caminho. Agora, tentação do demo, anda um puto de 27 a chatear-me. Ao menos não procura uma relação séria como todos os outros. Ha Ha Ha. Começo a pensar que talvez não fosse má ideia retirar-me das apps. Uma pessoa queria problemas, mas uns probrema bons... Não posso mandar os meus standards tão baixo... seriam 12 anos de diferença. Jesus Christ!

 

Realmente não sei o que é que Nossa Senhora do Grelo quer comigo... Os "velhos" da minha aldeia, ups!, idade, não me dizem nada. Muito traumatizados. Muito pouco corajosos. Muito pouco criativos. Às vezes não ter noção é uma vantagem. Mas só às vezes, claro. Ando a adiar uma cerveja com um deles porque a conversa começa sempre bem, mas depois descarrila. Segunda tentativa que fazemos. Não fluiu à primeira, não me parece que vá fluir à segunda. Nem à terceira, quarta, quinta... Muito bruto para o meu gosto. É capaz de me dizer "chupa aqui", coisa que ouvi e não apreciei. Portanto, não me vou meter numa dessa outra vez. Não é rocket science, mas está dificiu p'ra xuxu. Não flui com ninguém. E quando não flui uma pessoa pensa, bora lá ao castigo e nem o puto do castigo vale a pena. 

 

 

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Querem mais detalhes sobre a versão Mr. Grey do Aliexpress? Escusam de responder. Vou contar na mesma. Preciso de desafogar-me. No dia seguinte aos acontecimentos relatados no post anterior, enviei uma mensagem a perguntar como tinha corrido o exame. Achei que era o minimo que devia fazer. Ou máximo. Sei lá... Respondeu que sim, que se tinha safado e eu disse ainda bem. Não voltou a falar e eu também não. Não insisti. Devia?! Acho que não. O interessado suponho que seja ele. Voltei a dar espaço. De quanto espaço é que uma pessoa precisa para não ser parva? No Domingo, testei as águas. Enviei outra mensagem. Um assunto leve, para quebrar o gelo, pouco comprometedor. Perguntei-lhe se aceitava treinar mais um bichinho e enviei-lhe uma foto do cão dos meus pais (com quem tinha estado a brincar a tarde toda). Ele respondeu ISTO: "seguramente que não". Curto, seco, estúpido. Uma bela entrada a pés juntos de um puto mimado. Acho que não há vertente nenhuma na psicologia que consiga explicá-lo. Go fuck yourself! Podia não ter respondido, mas respondi, (foi um bocadinho mais forte do que eu): "compreendo, é demais para ti". E vai ele, e diz: "com toda a certeza". MAS QUE RAIO DE MERDA É ESTA? Há por aí alguém com mais estudos do que eu que me possa ajudar?

 

Acho que independentemente do objectivo das nossas interações, existem mínimos que devem ser cumpridos. O respeito é um deles. E pelos vistos, por aqui, não existe. Aproximei-me dele com as expectativas muito baixas. Um rapaz tão novo não podia trazer muito para cima da mesa. Sentia-o. Ainda pr'a mais com um prazo de validade à cabeça. Tentei manter os pés assentes na terra. Ele não mexe comigo. Os seus belos músculos, o seu corpo esculpido, a sua pele branca e os seus cabelos ruivos. Preciso obviamente de mais. No entanto, achei que era um grande desperdício - se ele já se tinha oferecido - não o aproveitar. Que o sexo, ao menos, mexesse. Não aconteceu. Fiquei super frustrada, confesso. No entanto, agi como esperava que agissem comigo se fosse eu a estar no lugar dele. Todos nós sabemos que as primeiras vezes entre duas pessoas são más. Assim como todos nós sabemos que o sexo bom só chega com a intimidade. É por isso que com ele não funciona. Porque ele não se entrega, não se permite e... não tem propriamente vontade de aprender.

 

Por outro lado, sinto que estou no hemisfério oposto. Cheia de embalagem. Pronta para tentar, errar e sobretudo experimentar. Uma vontade estranha em mim. Sinto-me mais ousada do que nunca e estou a gostar (MUITO) disso. By the way: as cordas estão a caminho. O que é que eu faço? Aviso-o quando elas chegarem? Não lhe digo nada? Espero que pergunte por elas? A mim não me fazem falta. Eu não quero amarrar-me, eu quero libertar-me! 

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Estou irritada. Irritadissima. Irritadississima. Senhor, como estou irritada. Querem novidades? Eu dou! Então diz que estava preparada, pronta, decidida a acabar com a dating app, mas deixei-a ficar porque fui de viagem e pensei: "última tentativa". Agora estou a perguntar-me porque é que não a eliminei antes. Dos 7000 matches que uma pessoa alcançou, dois "evoluíram". Evoluíram para o whatsapp porque entretanto já não estou na terra deles. História da minha vida: nunca estou onde é preciso. Um zuca que entretanto ficou a falar sozinho dado que a conversa com o tuga estava a ganhar, de longe, por uns por 7-1. Problema: ele diz tudo o que uma mulher quer ouvir e vocês sabem como isso é GRAVE. 

 

Depois de dois ou três dedos de conversa, ele ligou-me. Achei estranho, mas ao mesmo tempo interessante. Gosto de gente que se mexe. Estivemos umas 3 horas ao telefone. O recorde foram 6 . Ando cheia de olheiras. Acordo todos os dias como se tivesse uma ressaca. Ando uma lástima, acho até que já perdi peso... mas perante a história de vida do rapaz não fui capaz de não ouvi-lo. O problema é que é assim que eles me apanham sempre, eu, a Madre Teresa de Calcutá dos Desamparados. Não é que a conversa não seja boa, é. É crua, ou pelo menos eu acho que é e gosto disso, mas o rapaz tem um percurso diametralmente oposto ao meu, vive numa realidade diferente da minha, não estamos perto um do outro e se eu tivesse ficado à espera de todos os que me disseram que me queriam conhecer e vinham ter comigo, ainda hoje estava sentada na paragem do autocarro. Eu sei, é cedo demais para tirar conclusões precipitadas, mas eu também não ando nisto há 15 dias. Ele é giro (aliás foi por isso que eu fiz like), um pedaço de mau caminho (se bem que não lhe vi os dentes porque ele não sorri nas fotos). Fiz like porque já estava naquela, perdido por 100, perdido por 1000, não obstante ter pensado "não me importava nada que este me entalasse". É preciso ter muito cuidado com aquilo que a gente pensa, oh oh. O problema é que entretanto saiu tudo do controle. Ele liga-me várias vezes por dia, a caminho do trabalho, na pausa para o almoço, na pausa para o café, na pausa para o cigarro, no caminho de regresso e eu, de repente, vi-me a viver de auriculares nos ouvidos.  Não sei se consigo. Quando não respondo no messenger, ele manda mensagem pelo whatsapp e se eu não responder no whatsapp ele manda para o telemóvel. Vocês acham que isto é normal ou sou só eu a tentar encontrar indices de comportamentos abusivos?

 

Já lhe disse que é pouco provável que nos cruzemos, já lhe dei a entender que tem de apostar nos cavalos que estão perto do apiadeiro dele, mas ele diz que sabe que nos vamos cruzar e que não está nas apps à procura de sexo (sendo que uma das fotos é em tronco nu, de toalha enrolada). Jesus, um cliché. Como é que eu fui cair nessa? Ele perguntou-me se não tivesse a foto da toalha se eu teria feito like e eu fiquei calada. Enfim,  estou a gostar, claro, porque se pode conversar com ele e porque à partida ele parece ter uns valores e uns ideais muito semelhantes aos meus, no entanto tenho receio de estar a ser psicologa como sou quase sempre. Não posso negar que na semana passada me senti muito feliz, muito preenchida, muito qualquer coisa que não sentia há imenso tempo. Ele fez-me sonhar um bocado, um bocado muito para além da minha realidade e de tudo quanto perspectivei a curto prazo, disse a uma amiga minha, "se ele pedisse, eu casava-me".  Percebem agora a gravidade da situação? O problema é que este fim de semana ele foi à terrinha dele visitar uns amigos e puuuufffff, houve um vácuo pequeno, mas houve. Os factos ocorridos estão diluídos, jurou-me que não ia sair, que não lhe apetecia e foi, acabou a noite com uma amiga (amiga esta que já colocou ao telefone comigo para que ela me conhecesse). Fiquei desiludida porque sinto que ele me mentiu e não é por estar a querer cobrar nada, é porque começou tão bem que eu não queria estar assim cheia de suspeitas... tão cedo. Na realidade não temos nenhum compromisso, só falamos ao telefone (mais do que o normal), e eu sei que muitas vezes dormimos com uns e falamos com outros, mas eu não quero fazer isso se não sentir que vale a pena. Estão a entender-me? Faz-me confusão, nunca falei tanto com outra pessoa, nem mesmo com as que tive relações...

 

Ele é mais novo do que eu. Tem um passado marginal (eu sei, não abona a seu favor, mas pelo menos não escondeu). Dá-se com pessoas que me parecem não conhecer os limites de nada... Aconteceram-lhe uma série de coisas que são impossíveis sequer de imaginar. Ele não se faz de coitadinho, não é isso. Antes pelo contrário, diz que está a tentar mudar a sua vida e não ir pelos caminhos mais fáceis, o problema é que é muito fácil duvidar dele. Muito mesmo. Eu acho que ele é uma das pessoas mais incriveis que alguma vez conheci (pelo menos achava isso até hoje) e ao mesmo tempo um grande bandido doutorado em lábia. Esta puta dualidade não me parece muito conveniente, sobretudo porque estou numa fase da minha vida bastante estável e não me apetecia nada, mesmo nada, virá-la do avesso. Ele tem tudo o que eu não tolero, fuma, come junk food dia sim, dia não, não prossegiu estudos, divide casa com mais umas 5 ou 6 pessoas, não tem carro... Eu sei que pareço uma dondoca a falar e que posso ser má interpretada, mas estão a ver, não estão... Eu não encaixo nisso, de maneiras que não percebo porque é que a única criatura na app a seguir adiante tenha sido esta.

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Pois é, queriam novidades, vão ter. Tristes, aviso já. Como já tinha partilhado antes, deixei de falar com o mocinho antes do fim do ano. Uma decisão em consciência. Não me arrependo. Não queria arrastar uma coisa que não era nada para 2023. Ainda assim, e mesmo sem interagirmos, ele fez questão de desejar Feliz Natal e Feliz Ano Novo, mensagens às quais eu respondi para não parecer uma besta. Como amigos achei que era o minimo que devia fazer. No entanto, confesso que já nada me fazia muito sentido.

 

Depois do Natal voltámos a interagir um pouco mais, ainda que a conversa servida fosse a mesma de sempre: uma refeição pobre e desnutrida sem grande aporte calórico. A dada altura de Janeiro cobrou-me o facto de eu ter saído com amigas (coisa que já tinha feito antes e eu tinha deixado passar). Cabe-me acrescentar que também tinha o terrível hábito de enviar prints (de conversas antigas) quando queria provar que tinha razão sobre tópicos discutidos antes. Excusado será dizer que me PASSEI! Perguntei-lhe preto no branco o que é que ele REALMENTE queria e porque raio é que ele me estava a cobrar algo sem sequer ter uma relação / compromisso comigo. Disse-lhe ainda que os comportamentos dele eram péssimos e infantis e que já era altura de parar de se comportar como um tóxico, egocêntrico que só sabe medir as distâncias que lhe convém (sim, porque ele disse que não podia fazer nada em relação a nós por causa da distância).

 

Então o Dubai é ali ao lado, não é? Been there, done that. Rematei o bate-boca que tivemos dizendo que ele não os tinha no sítio e a seguir removi-o dos meus seguidores e deixei de o seguir. Bolas. Que gasto de energia! Como é que uma pessoa pode ter os chacras alinhados? É impossível! 

 

Janeiro é um mês delicado. Há um ano atrás estava super apaixonada por aquele outro tipo que conheci numa app e por quem fiquei de beiça caída. É impossível não pensarmos na nossa vida há exactamente um ano atrás. De qualquer das formas, esforcei-me para aceitar as coisas como elas são e continuar com a minha vidinha, tal como ele continuou com a sua. Seguíamo-nos mutuamente nas redes sociais, mas ontem, reaparei que tinha menos um seguidor no insta e não sei porquê tive um feeling que era ele. Deixou de me seguir, mas não me removeu dos seguidores dele.

 

Eu sei que as redes sociais e as putas das apps valem o que valem, mas não posso dizer que não doeu. Há séculos que não chorava como chorei ontem. 5 minutos (também não foi assim um pranto). Estava desprevenida. Sabia que podia acontecer, mas gostava de pensar que ele me tinha num cantinho especial do seu coração. Tê-lo ali era como se isso fosse a última lembrança de uma história bonita que eu agora coloco em dúvida. Será que ele também olha para trás e pensa onde é que estava há um ano atrás? Estava comigo. Para me consolarem, as minhas amigas inventaram que ele deixou de me seguir porque não conseguia lidar com isso. Com a história que ficou assim meio entalada. Hummm. Deixou porque já lá vai e porque a vida segue e eu devia fazer exactamente o mesmo. Tenho quase 40 e a criança pareço eu.

 

Ele era fofo, bom de conversa, abraçava como ninguém, conjugava os verbos nos tempos certos e viu-me mais nua do que alguma vez alguém viu. Levantou-se-me depois uma dúvida. Deixo de o seguir também? Já não importa muito, pois não?

 

Hoje vim trabalhar forrada de preto numa espécie de luto. A minha ingenuidade morreu. Outra vez. Pela 873456ª vez. Não queria começar 2023 sem pendências? Ora aí está o universo a enviar-me um sinal óbvio. Mas opah, logo agora que eu estou a ficar boa como o milho, é que o caralho deixa de me seguir? Nunca é como a gente quer, não é verdade? Se há coisa que eu peço sempre ao destino é que se algum dia me voltar a cruzar com algum dos meus exs, que eu esteja no meu melhor... No fundo do meu ser, eu sei que vai acontecer no dia em que eu não tiver lavado o cabelo. Estou mesmo a ver.

 

Portanto, com toda a dor que é própria destas coisas, apraz-me dizer-vos que estou triste e que já não espero muito de nada. Contudo, acho que talvez tenha de tomar uma atitude face ao futuro. Porque é que sou sempre eu a deixar que sejam eles a escolher-me, a adicionar-me, a falarem? Porque é que não sou a dar esse passo? Serei capaz?

 

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Era só para avisar que vamos ressarcir com dois tremoços todos aqueles que leram o blogue nos últimos dias e sentiram o dedo mindinho do pé direito tremelicar. A pessoa de quem eu vos falei não merece nem mais três nano segundos de tempo de antena. Passou os últimos 4 dias sem dizer nada. E quando voltou a falar disse o quê? "Amanhã entro de férias finalmente!". E eu, esta que vos escreve, cujo sonho de vida é encontrar um homem com uns braços tão fortes como os do Patrick Swayze no Dirty Dancing e que até tinha uma certa esperança que a criatura aproveitasse a oportunidade para me vir conhecer, ouviu o quê quando perguntou- "e então, que planos tens"? "Dubai" à boca cheia. Olhem filhos, cansei de me esforçar. Assim como assim, a minha i-n-t-u-i-ç-ã-o estava certa desde o inicio.

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Quando tens reuniões de trabalho com novos fornecedores e eles referem "as namoradas" e tu pensas: "pelo menos ainda não é casado". Que táctica! Nunca na vida pensei que eu teria, um dia, esta visão do jogo. Não é pecado. Só não vale entrar a pés juntos. Era engraçado. De cascos de rolha, claro. Quanto mais foragidos são, mais me interessam. Oh Deuses do Olimpo, tende compaixão de mim por favor! 

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Estou viva. Não sei se vos interessa muito, mas estou bem viva até. Sinto-o. Se há coisa que eu precisava muito era sentir-me assim: viva. Durante os últimos anos da minha vida - anos duríssimos por supuesto - não consegui acreditar em outra coisa senão na hipótese quase certa da vida não ter mais nada reservado para mim. Como poderia ela surpreender-me depois de me ter quase levado? Parecia-me bastante impossível. Ainda parece às vezes, confesso. A dor - com quem tenho mantido uma relação de diplomacia - foi a única coisa em que acreditei. Como se fosse possível viver sob este pacto: a vida não me fazia sofrer mais em troca de uma existência pacífica e pouco condimentada. Começo a suspeitar que se calhar eu não sou uma mulher assim tão pacífica, se calhar eu não me contento com uma vida assim tão pouco condimentada, se calhar eu quero mais e ao contrário do que eu pensava antes, não há nada de errado em desejá-lo muito sobretudo depois de ter sofrido tanto. Eu QUERO. Tudo a que tenho direito. Tudo o que (ainda) não tive e tudo o que tive e de que gostei (e não me importava de repetir). 

 

Gerir tanto sofrimento e tanta dor em simultâneo fez-me fugir de tudo e de todos, até de mim. Há momentos na nossa vida em que a única coisa que nos resta fazer é ligar o piloto automático e esperar que a turbulência passe. Foi mais ou menos isso que me aconteceu. Primeiro tratei de sobreviver e depois, quando houvesse tempo, se houvesse tempo, eu havia de chorar. Pensei, ingenuamente, que evitando a vida, evitaria também mais dores. Na realidade, habitei um corpo sem desfrutar muito dele. Não ter tido relações sexuais durante estes anos foi uma escolha minha. No fundo, não deixei que ninguém se aproximasse. Não sei se vocês já passaram por alguma situação semelhante, mas a sensação de impotência que nos invade quando se ordena ao corpo uma coisa e ele não responde, é horrível. Durante muito tempo, olhei para o meu corpo como a origem de toda a dor que me era impigida. Durante muito tempo o meu corpo pertenceu aos médicos e à medicina, (ainda pertence na verdade), e nesse processo, o meu sexo, o que me definia enquanto mulher, a minha sensualidade, foi-se perdendo. Não me sentia desejada e não me sentia muito sexual embora continuasse a ter muito desejo. Só comecei a resgatar de novo essa ideia quando percebi que estava a voltar a ter algum controlo sobre o meu corpo. Quando o submeti a alguns desafios e os resultados apareceram. O ginásio foi (e continua a ser) a minha terapia. Depois vieram as primeiras saídas, os olhares, as conversas, os dates, A pessoa. Ainda que o nosso caso tenha sido uma comédia americana foleira, devo-lhe um bocadinho isso. Acho que o gajo que escreve o guião o colocou na minha vida com essa finalidade: lembrar-me que era mulher e que o meu corpo continuava a ser desejado como já tinha sido antes provavelmente com a intenção de me preparar para quem viria a seguir. A única que na verdade via limitações era eu. É sempre sobre nós.   

 

Um dia, cansada de tentar estabelecer conexões e não conseguir, perguntei a um amigo meu dado às terapias alternativas se eu não teria um chacra qualquer bloqueado e ele respondeu-me com a sua voz de garantia que não, que a única coisa que eu precisava era acreditar mais em mim, que estava no caminho certo e que ia lá chegar levasse o tempo que levasse, o importante era não desistir. No fundo, foi um bocadinho isso que aconteceu. É isso que tem acontecido. Fui-me abrindo, aos poucos, e deixando a vida entrar. Sempre com medo claro, mas com mais vontade também. Eu disse-vos que sentia que 2022 era o ano, que estava próximo. E estava. O jejum está quebrado, o trauma ainda não. Acho que vou precisar de mais uns quilómetros até me sentir um bocadinho mais inteira. Ou mais segura. Ou mais confiante. O que eu sei melhor hoje é que se calhar nenhum de nós está assim tão inteiro como parece e que isso não é necessariamente uma coisa feia. Devíamos ser todos mais honestos, mais vulneráveis e mais maduros em relação aos nossos processos de reorganização emocional. Não há exercício mais bonito do que alguém a tentar ser feliz, cada um com as suas dores.

 

Quis escrever-vos na altura, no momento quente, mas não consegui. Deixei-me apenas sentir. Acho que isso foi realmente o mais importante: permitir-me sentir pela primeira vez em muito tempo. Permitir-me ser vulnerável, humana, real e deixarem-me ver, assim. Mesmo que eu o tenha tentando disfarçar, não consegui. E isso foi assustador... e raro. O bom de nos deixarmos viver um bocadinho é que tudo sabe a novo. Quando vos escrevi que foi muito mais do que sexo, é porque na realidade, toda a experiência teve o impacto de um meteorito. Mas um impacto bom. Quando uma amiga minha me perguntou como é que tinha sido a minha segunda primeira vez, eu respondi-lhe que agora é que tinha sido a primeira a sério! Tecnicamente não foi um sexo estrondoso, não podia ser, acho que nunca o é na primeira vez e muito menos depois de muito tempo sem. Não foi sexo. Foi outra coisa. Não vos consigo explicar. Foi qualquer coisa estranha. E boa. E estranha. E nova. E diferente. Qualquer coisa que me levou a pensar: "caramba, a minha vida, afinal, agora é que está a começar". Ainda bem que isto ainda me estava reservado. Ainda bem que depois de tantos fins, a vida me ofereceu, de novo, uma primeira vez. Valeu a pena esperar.

 

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